Sua cidade está preparada para a próxima onda de calor?

As ondas de calor não são apenas um problema de temperatura. Elas podem pressionar os serviços de saúde, aumentar o consumo de energia, afetar trabalhadores ao ar livre, elevar o risco de desidratação e expor com mais intensidade quem vive em moradias pouco ventiladas, áreas sem arborização ou regiões com acesso limitado a água e atendimento médico.

A pergunta, portanto, não é somente quantos graus fará, mas se a cidade sabe quem está mais vulnerável, como avisará a população, quais espaços poderão funcionar como refúgios climáticos e quais serviços serão acionados quando o calor ultrapassar os níveis habituais.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o calor extremo está entre os riscos meteorológicos e climáticos mais perigosos para a saúde. A ameaça depende da temperatura, mas também da umidade, da radiação solar, do vento, da duração do evento e da capacidade de adaptação da população.[1][4]

Uma cidade resiliente ao calor não espera a emergência começar. Ela combina previsão, comunicação, saúde pública, desenho urbano e proteção social antes, durante e depois do evento.

O que caracteriza uma onda de calor?

Uma onda de calor é um período de temperaturas excepcionalmente elevadas para determinada região e época do ano, geralmente persistente por vários dias. Não existe um único limite de temperatura válido para todas as cidades: o que é extremo em uma localidade pode ser habitual em outra.[1]

A duração também é decisiva. Quando as noites permanecem quentes, pessoas, edificações e ambientes urbanos perdem menos calor acumulado durante o dia. Isso reduz a recuperação do organismo e aumenta a exposição, especialmente para idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores ao ar livre e moradores de habitações sem ventilação adequada.[2]

O Ministério da Saúde destaca que as ondas de calor podem afetar toda a população, com risco maior para idosos, crianças, gestantes, pessoas com problemas renais, cardíacos, respiratórios ou circulatórios, pessoas com diabetes e população em situação de rua.[2]

Por que o calor é mais intenso nas cidades?

As cidades podem registrar temperaturas mais elevadas do que áreas rurais próximas por causa do efeito de ilha de calor urbana. Asfalto, concreto e telhados absorvem e armazenam energia durante o dia, enquanto a pouca vegetação reduz o sombreamento e a evapotranspiração. A forma dos edifícios também pode dificultar a circulação do ar e manter o calor entre as construções.[1][2]

Esse efeito não é distribuído de maneira igual. Bairros com menos árvores, maior impermeabilização do solo, maior densidade construtiva e menor acesso a equipamentos públicos tendem a concentrar mais exposição e menos possibilidades de proteção. Por isso, uma política de combate ao calor precisa combinar mapas de temperatura com dados sociais, habitacionais e de saúde.

O teste de preparação: cinco perguntas para a prefeitura

Antes da próxima onda de calor, a prefeitura deveria conseguir responder claramente às seguintes perguntas:

PerguntaO que uma cidade preparada deve ter
Quem será avisado?Alertas acessíveis, em linguagem simples, com canais digitais e presenciais.
Quem precisa de atenção prioritária?Cadastro ou mapeamento territorial de idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças crônicas, pessoas com deficiência, trabalhadores expostos e população em situação de rua.
Onde as pessoas poderão se proteger?Rede de espaços frescos, como unidades de saúde, escolas, centros comunitários, bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Quem coordena a resposta?Protocolo com responsabilidades definidas para saúde, assistência social, defesa civil, educação, transporte, limpeza urbana e comunicação.
Como saberemos se funcionou?Indicadores de atendimento, mortalidade, internações, chamados, acesso aos refúgios e cobertura dos alertas.

Essas perguntas traduzem os elementos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para planos de ação de saúde e calor: governança, alertas vinculados a medidas predefinidas, proteção de grupos de risco, comunicação, resiliência dos serviços de saúde, redução da exposição, vigilância e avaliação.[3]

1. Criar um sistema de alerta que indique o que fazer

Um alerta eficiente não deve apenas informar que a temperatura subirá. Ele precisa dizer quando o risco começa, quem está mais exposto, quais comportamentos devem ser adotados e quais serviços serão ativados.

A OMM e a OMS recomendam que sistemas de alerta de calor sejam integrados a planos mais amplos de ação em saúde. Isso significa estabelecer gatilhos objetivos e associá-los a medidas concretas, como reforço de equipes, contato com pessoas vulneráveis, abertura de espaços climatizados ou sombreados, ajuste de atividades externas e comunicação direcionada.

Também é importante comunicar o risco de forma acessível. Mensagens devem considerar pessoas com deficiência, idosos, pessoas sem acesso contínuo à internet, diferentes idiomas e moradores de áreas onde os canais digitais não funcionam bem.

2. Proteger a saúde antes que os atendimentos aumentem

O calor extremo pode causar desidratação, cãibras, exaustão, insolação e agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e mentais. Em casos graves, o golpe de calor pode provocar confusão, convulsões, perda de consciência e risco de morte.[1]

Uma cidade preparada deve antecipar a pressão sobre a rede de saúde. Isso pode incluir a divulgação de sinais de alerta, orientação a profissionais, reforço de unidades em áreas mais expostas, monitoramento de atendimentos e articulação com assistência social.

O Ministério da Saúde orienta a manter ambientes frescos, beber água regularmente, usar roupas leves, ajustar atividades ao ar livre para horários menos quentes e buscar atendimento diante de sintomas como transpiração excessiva, fraqueza, tontura, náusea, dor de cabeça, cãibras ou diarreia.[2]

Ajustes de medicamentos, entretanto, não devem ser feitos por conta própria. Pessoas com doenças preexistentes precisam seguir orientação profissional.

3. Criar uma rede de refúgios climáticos

Refúgios climáticos são locais em que a população pode permanecer por algumas horas em condições mais seguras durante o pico de calor. Eles podem funcionar em equipamentos públicos já existentes, desde que tenham ventilação ou climatização adequadas, água potável, acessibilidade, banheiros, informação e horários compatíveis com a necessidade local.

A cidade não precisa começar necessariamente construindo novos prédios. Pode mapear bibliotecas, escolas, centros de convivência, unidades de saúde, centros de assistência social e outros espaços que possam ser ativados durante alertas. O mais importante é que a rede seja conhecida pela população e priorize territórios com maior exposição e menor capacidade de adaptação.

A criação desses espaços deve vir acompanhada de transporte acessível e atenção às pessoas que não conseguem se deslocar sozinhas. Para a população em situação de rua, por exemplo, a resposta precisa combinar abrigo, água, alimentação, assistência social e cuidado em saúde, sem depender exclusivamente de uma comunicação digital.

4. Ampliar sombra, arborização e áreas verdes

Árvores e áreas verdes podem reduzir a exposição direta à radiação solar, melhorar o conforto térmico e contribuir para espaços públicos mais seguros e utilizáveis. Mas plantar árvores de forma isolada não resolve o problema: a política precisa considerar espécie adequada, disponibilidade de água, manutenção, calçadas, redes elétricas, acessibilidade e distribuição territorial.

O planejamento deve priorizar locais de circulação e permanência, como pontos de ônibus, caminhos para escolas, unidades de saúde, praças, áreas de lazer e bairros com menor cobertura vegetal. Também é necessário evitar que a arborização beneficie apenas regiões já valorizadas, ampliando desigualdades urbanas.

Além da arborização, o município pode combinar sombreamento artificial, telhados e fachadas mais refletivos, pavimentos adequados, ventilação urbana, recuperação de áreas permeáveis e parques de proximidade. A solução mais eficiente tende a ser um conjunto de medidas adaptado ao clima e à forma de cada cidade.

5. Proteger trabalhadores expostos ao calor

Trabalhadores da construção civil, limpeza urbana, agricultura, entregas, manutenção, transporte, comércio de rua e outras atividades externas podem permanecer muitas horas sob calor intenso. A exposição pode reduzir concentração, coordenação e desempenho físico, além de elevar o risco de acidentes e agravos à saúde.

A preparação municipal deve dialogar com empregadores, sindicatos, serviços de saúde do trabalhador e órgãos de fiscalização. Entre as medidas possíveis estão pausas em locais frescos, oferta de água, reorganização de horários, roupas adequadas, sombra, treinamento para reconhecer sintomas e suspensão de atividades quando as condições representarem risco elevado.

A proteção não deve ser vista como perda de produtividade. Ao contrário: prevenir adoecimentos, acidentes e afastamentos protege trabalhadores e reduz impactos econômicos para famílias, empresas e serviços públicos.

6. Preparar escolas, creches e serviços de assistência

Crianças pequenas podem ter maior dificuldade para regular a temperatura corporal e dependem de adultos para hidratação e proteção. Escolas e creches precisam de ambientes ventilados, acesso à água, áreas sombreadas e protocolos para ajustar atividades físicas e permanência ao ar livre.

Serviços de assistência social também são essenciais para localizar pessoas isoladas, famílias em moradias precárias, idosos que vivem sozinhos, pessoas com deficiência e população em situação de rua. O calor extremo revela desigualdades que, em muitos casos, já existiam antes do evento.

7. Usar dados para direcionar os investimentos

Nem todo bairro precisa da mesma intervenção. A prefeitura pode cruzar dados de temperatura de superfície, cobertura de árvores, densidade populacional, renda, idade, doenças crônicas, qualidade das moradias, localização de equipamentos de saúde e acesso ao transporte.

Esse diagnóstico ajuda a responder perguntas práticas: onde instalar pontos de hidratação? Quais linhas de ônibus passam por áreas mais quentes? Que escolas precisam de sombra? Onde estão os idosos que vivem sozinhos? Quais unidades de saúde têm maior probabilidade de receber pacientes durante uma onda de calor?

A avaliação também precisa ser contínua. Depois de cada evento, o município deve verificar quantas pessoas receberam o alerta, quantos espaços foram ativados, quais bairros ficaram descobertos e quais medidas reduziram efetivamente a exposição.

8. Integrar calor extremo ao planejamento urbano

Ondas de calor não devem aparecer apenas em planos de emergência. O risco precisa ser incorporado ao plano diretor, à política habitacional, ao planejamento de mobilidade, à arborização, à drenagem, à saúde pública, à educação, à assistência social e ao orçamento municipal.

A OMS recomenda trabalhar com todo o ciclo do risco: preparação, ativação e resposta, avaliação pós-evento e melhoria antes da próxima estação quente.[3]Essa lógica evita que a cidade atue apenas de forma reativa.

Também é importante reconhecer que calor e outros riscos podem ocorrer ao mesmo tempo. Calor, seca, fumaça de queimadas, poluição do ar, falta de água e sobrecarga energética podem se combinar, ampliando os danos e exigindo coordenação entre diferentes áreas do governo.[1]

Checklist: como saber se a cidade está preparada

Uma cidade está mais preparada quando:

1.possui alertas de calor integrados a ações predefinidas;

2.identifica grupos e territórios mais vulneráveis;

3.mantém uma rede de espaços frescos e acessíveis;

4.orienta a população com mensagens claras e multicanais;

5.prepara a rede de saúde para o aumento da demanda;

6.protege trabalhadores expostos;

7.ajusta o funcionamento de escolas e serviços sociais;

8.amplia sombra, árvores e áreas verdes onde a exposição é maior;

9.monitora temperatura, saúde e desigualdades no território;

10.avalia a resposta depois de cada evento e corrige o plano.

Conclusão: a próxima onda de calor começa a ser enfrentada agora

Uma cidade preparada para ondas de calor não é aquela que consegue prever todos os detalhes do próximo evento. É aquela que sabe agir mesmo diante da incerteza: informa cedo, protege quem mais precisa, mantém os serviços essenciais funcionando e transforma dados em decisões.

O calor extremo é um problema climático, urbano e social ao mesmo tempo. Por isso, a resposta não pode depender apenas de ar-condicionado ou de recomendações individuais. Ela precisa combinar saúde pública, assistência social, planejamento urbano, arborização, moradia adequada, proteção do trabalho e participação da comunidade.

A pergunta “sua cidade está preparada para a próxima onda de calor?” pode ser respondida com um indicador simples: quando o alerta for emitido, a população saberá exatamente o que fazer e a prefeitura saberá exatamente quem deve agir? Se a resposta ainda não for clara, o planejamento precisa começar antes que as temperaturas subam.

Perguntas frequentes

O que uma prefeitura deve fazer antes de uma onda de calor?

Deve monitorar previsões e indicadores de calor, definir níveis de alerta, identificar grupos vulneráveis, preparar a rede de saúde, comunicar orientações claras, ativar espaços frescos e coordenar assistência social, defesa civil, educação e serviços urbanos.

Quem corre mais risco durante uma onda de calor?

Embora qualquer pessoa possa sofrer efeitos do calor extremo, idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças cardíacas, respiratórias, renais ou circulatórias, pessoas com diabetes, pessoas com deficiência, trabalhadores ao ar livre, pessoas socialmente isoladas e população em situação de rua podem enfrentar riscos maiores.[1][2]

Árvores resolvem o problema das ondas de calor?

Não sozinhas. A arborização ajuda a reduzir a exposição e melhorar o conforto térmico, mas deve ser combinada com planejamento urbano, moradia adequada, alertas, refúgios climáticos, serviços de saúde e proteção social.

O que é um plano de ação para ondas de calor?

É um protocolo coordenado que define responsabilidades, gatilhos de ativação, comunicação, proteção de grupos vulneráveis, preparação dos serviços de saúde, medidas urbanas e avaliação dos resultados. A OMS recomenda que esses planos funcionem durante todo o ciclo de preparação, resposta e melhoria.

Referências

[1]ORGANIZAÇÃO METEOROLÓGICA MUNDIAL. Extreme heat. [S. l.]: WMO, [s. d.]. Disponível em: https://wmo.int/themes/extreme-heat.

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Ondas de calor. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/o/ondas-de-calor.

[3] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Planning heat–health action. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe, 2026. Disponível em: https://www.who.int/europe/activities/planning-heat-health-action/planning-heat-health-action.

[4] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE; ORGANIZAÇÃO METEOROLÓGICA MUNDIAL. Heatwaves and health: guidance on warning-system development. Geneva: World Health Organization, 2016. Disponível em: https://www.who.int/publications/m/item/heatwaves-and-health–guidance-on-warning-system-development.