O interesse dos Estados Unidos pela produção brasileira de terras raras revela como minerais críticos se tornaram peças centrais da transição energética, da indústria de alta tecnologia e da segurança econômica. O desafio para o Brasil é transformar suas grandes reservas em desenvolvimento industrial e tecnológico, e não apenas em exportação de matéria-prima.
A transição energética está criando uma nova disputa global por recursos naturais. Se no século passado o petróleo esteve no centro das preocupações relacionadas à segurança energética, no século XXI minerais como lítio, cobre, níquel, grafite e terras raras passaram a ocupar posição estratégica.
O Brasil está entrando nesse cenário com uma vantagem geológica importante: possui algumas das maiores reservas de terras raras do mundo. Mas o interesse internacional crescente também traz uma questão cada vez mais relevante para o país: como transformar recursos minerais estratégicos em soberania tecnológica, desenvolvimento econômico e benefícios para a sociedade?
O caso da Serra Verde, em Minaçu, Goiás, mostra como essa disputa está se tornando concreta.
Em abril de 2026, a americana USA Rare Earth anunciou a aquisição do Grupo Serra Verde. O negócio foi acompanhado por um acordo de fornecimento de 15 anos envolvendo a produção da primeira fase do projeto Pela Ema, com participação de uma estrutura financiada por agências do governo dos Estados Unidos e investidores privados. [1]
O movimento coloca uma operação brasileira no centro da estratégia americana para diversificar o fornecimento de terras raras e reduzir a dependência da China.
Por que as terras raras são tão importantes para a transição energética?
Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente raras na crosta terrestre. O problema é que concentrações economicamente viáveis são menos comuns e a separação dos diferentes elementos é tecnicamente complexa.
O grupo reúne 17 elementos químicos com propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas específicas. Entre eles estão o neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, particularmente importantes para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.
Esses ímãs estão presentes em tecnologias fundamentais para a eletrificação da economia, incluindo veículos elétricos, turbinas eólicas e motores industriais. A Agência Internacional de Energia (IEA) também destaca aplicações em data centers, robótica, equipamentos médicos, aeroespacial e defesa. [2]
Isso significa que as terras raras estão conectadas diretamente a uma das principais tendências da economia mundial: a substituição gradual de tecnologias dependentes de combustíveis fósseis por sistemas eletrificados e de baixo carbono.
A IEA estima que a demanda por terras raras utilizadas em ímãs tenha dobrado desde 2015 e possa crescer mais um terço até 2030, considerando as políticas atuais. [2]
E a tendência não está restrita aos veículos elétricos. A expansão da energia eólica também aumenta a importância desses materiais. A IEA estima que, em 2030, a China ainda poderá responder por cerca de 60% da mineração e 90% do refino das terras raras utilizadas em ímãs para turbinas eólicas, enquanto cerca de 90% da fabricação desses ímãs permanece concentrada no país. [3]
É justamente essa concentração que transformou as terras raras em um problema de segurança econômica e geopolítica.
China domina a cadeia global
O principal desafio para países que desejam ampliar a produção de tecnologias verdes não está apenas em encontrar jazidas. É necessário controlar uma cadeia que envolve:
mineração → concentração → separação → refino → produção de metais e ligas → fabricação de ímãs → produção de tecnologias.
E é justamente nas etapas de maior valor agregado que a concentração chinesa se torna mais evidente.
Segundo a IEA, a China respondeu em 2024 por aproximadamente 60% da produção mundial de terras raras utilizadas em ímãs, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados. [2]
Essa concentração ficou ainda mais evidente depois das restrições chinesas às exportações de determinados elementos e produtos de terras raras em 2025. Segundo a IEA, as medidas provocaram dificuldades de abastecimento para fabricantes de automóveis nos Estados Unidos, Europa e outros mercados. [2]
Em outras palavras, a transição energética criou uma contradição estratégica. O mundo quer reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis, mas pode criar novas dependências em relação aos minerais necessários para construir a infraestrutura de baixo carbono.
Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo
É nesse ponto que o Brasil ganha importância. Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), compilados pela Agência Nacional de Mineração, mostram que o país possui 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, segundo a edição de 2026 do Mineral Commodity Summaries. [4]
O Brasil aparece atrás da China, que possui cerca de 44 milhões de toneladas de reservas segundo a mesma fonte.
O potencial brasileiro também é reconhecido pelo próprio governo federal. O Sumário Mineral da ANM destaca ocorrências em estados como Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Amazonas, Rondônia e Rio de Janeiro, entre outros. [5]
O Serviço Geológico do Brasil continua realizando pesquisas para ampliar o conhecimento sobre essas reservas. Em 2026, por exemplo, avançou em estudos sobre o potencial de terras raras no Cinturão Ribeira, envolvendo áreas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. [6]
Mas existe uma diferença importante entre ter reservas e dominar uma cadeia produtiva. E esse pode ser o principal desafio brasileiro.
O Brasil ainda está longe de controlar toda a cadeia
A produção brasileira de terras raras ainda é pequena quando comparada ao tamanho das reservas.
A Serra Verde, em Minaçu, é atualmente a principal operação comercial do país. Um estudo publicado pelo Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) aponta que a produção brasileira ainda está concentrada principalmente na mineração e na produção de concentrados, enquanto etapas como separação dos óxidos, produção de metais, ligas e ímãs permanecem como desafios tecnológicos e industriais. [7]
Essa diferença é fundamental. Exportar o minério ou um concentrado gera valor. Mas produzir os óxidos, metais, ligas e ímãs gera muito mais valor agregado, conhecimento tecnológico, empregos qualificados e capacidade industrial.
É por isso que a discussão sobre terras raras não deveria ser reduzida à pergunta sobre quanto o Brasil pode produzir.
A questão estratégica é outra:
Quanto valor o Brasil será capaz de capturar dentro da cadeia global das terras raras?
O caso Serra Verde mostra o dilema da soberania
A aquisição da Serra Verde pelos Estados Unidos tornou essa discussão ainda mais relevante.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, o governo brasileiro reconhece a necessidade de atrair capital estrangeiro para o setor, mas também defende políticas capazes de garantir desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial e interesse nacional. [8]
O próprio estudo coordenado pelo MME sobre uma Estratégia Nacional de Terras Raras destaca a importância de desenvolver uma cadeia de valor que vá além da mineração. O projeto relacionado à Serra Verde prevê uma plataforma internacional envolvendo ativos no Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido, com atuação desde a mineração até a fabricação de ímãs permanentes. [1]
Isso ajuda a explicar por que as terras raras passaram a ser tratadas como ativos estratégicos.
A questão não é simplesmente quem possui a mina.
É quem controla a tecnologia, o processamento, os contratos de fornecimento, a fabricação dos componentes e o acesso aos mercados.
Transição energética também cria um desafio ESG
Existe ainda um paradoxo importante nessa história.
As terras raras são fundamentais para diversas tecnologias associadas à descarbonização. Mas a mineração desses elementos não é automaticamente sustentável.
Uma revisão científica publicada no Journal of Hazardous Materials em 2025 aponta que a produção convencional de terras raras pode provocar impactos como acidificação do solo, contaminação por metais pesados e riscos associados a elementos radioativos presentes em determinados depósitos. Os pesquisadores defendem a combinação de tecnologias de produção mais limpas, avaliação de ciclo de vida e princípios de economia circular. [9]
Outro estudo de revisão publicado na Resources, Conservation & Recycling destaca que os ímãs permanentes de terras raras são componentes importantes de tecnologias de energia limpa, mas que a cadeia produtiva enfrenta desafios ambientais e geopolíticos que precisam ser considerados para que as metas de transição energética sejam alcançadas. [10]
Ou seja, uma tecnologia pode contribuir para reduzir emissões durante sua utilização e, ao mesmo tempo, gerar impactos ambientais em sua cadeia de produção.
Essa é uma das grandes questões do ESG aplicado aos minerais críticos.
O paradoxo da mineração para uma economia verde
A discussão é maior do que as terras raras. A transição energética exige grandes quantidades de minerais para fabricar baterias, redes elétricas, motores, turbinas e outras tecnologias.
Uma revisão sistemática publicada na revista Energy Research & Social Science identificou justamente esse desafio: a mineração de minerais críticos pode gerar oportunidades econômicas, mas também riscos ambientais, sociais e de governança. [11]
Por isso, a pergunta não deveria ser simplesmente:
“Precisamos de mineração para fazer a transição energética?”
A resposta é, em grande medida, sim.
A pergunta mais importante é:
“Como fazer essa mineração de forma ambientalmente responsável, socialmente justa e economicamente estratégica?”
Isso envolve licenciamento ambiental, proteção de recursos hídricos, recuperação de áreas degradadas, segurança de trabalhadores, relacionamento com comunidades, transparência, rastreabilidade e distribuição dos benefícios econômicos.
Também envolve pensar no que acontece depois da extração.
Reciclagem e economia circular podem reduzir a pressão sobre novas minas
Uma transição energética realmente sustentável não pode depender indefinidamente da abertura de novas minas. A recuperação de terras raras a partir de equipamentos descartados, resíduos industriais e componentes tecnológicos pode contribuir para diversificar a oferta e reduzir a necessidade de novas extrações.
O próprio Ministério de Minas e Energia já destaca iniciativas brasileiras de recuperação de óxidos de terras raras reciclados, incluindo projetos desenvolvidos em parceria com o SENAI. [12] Pesquisas recentes também apontam reciclagem, substituição de materiais e urban mining como estratégias para reduzir riscos ambientais e geopolíticos associados às terras raras. [13]
Nesse cenário, a economia circular deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ser também uma estratégia de segurança de recursos.
O verdadeiro ativo estratégico pode estar além da mina
O interesse dos Estados Unidos pelas terras raras brasileiras mostra que os minerais críticos estão deixando de ser apenas commodities. Eles passaram a ser parte da infraestrutura estratégica da economia mundial.
Para o Brasil, isso representa uma oportunidade rara. O país possui grandes reservas, potencial geológico, matriz elétrica relativamente limpa e experiência relevante em mineração. Mas ainda precisa ampliar sua capacidade tecnológica e industrial para transformar recursos minerais em produtos de maior valor agregado.
O desafio, portanto, não é escolher entre atrair investimentos estrangeiros ou proteger a soberania nacional. É criar condições para fazer as duas coisas simultaneamente. Isso significa atrair capital, tecnologia e mercados, mas estabelecer políticas que estimulem pesquisa, processamento, fabricação, inovação, reciclagem e desenvolvimento de fornecedores no próprio país.
A questão central é evitar que o Brasil repita um padrão histórico: exportar recursos naturais e importar produtos de maior valor agregado.
Terras raras podem ser uma oportunidade para o Brasil, se houver estratégia
A disputa global pelas terras raras mostra que a transição energética está redesenhando o mapa econômico mundial. Os países que conseguirem garantir acesso aos minerais críticos terão vantagem na produção de veículos elétricos, equipamentos de energia renovável, motores, eletrônicos e tecnologias avançadas.
Mas os países que conseguirem dominar também o conhecimento e as etapas industriais da cadeia poderão capturar uma parcela muito maior desse valor.
O Brasil tem uma oportunidade concreta diante de si. Suas reservas de terras raras podem atrair bilhões em investimentos e colocar o país no centro de uma cadeia estratégica para a economia de baixo carbono.
Mas a verdadeira soberania mineral não estará apenas em possuir a jazida. Estará na capacidade de transformar o recurso mineral em tecnologia, indústria, empregos qualificados, inovação e desenvolvimento, respeitando os limites ambientais e os direitos das comunidades que vivem nos territórios onde esses recursos estão.
É nesse ponto que terras raras, transição energética, ESG e soberania nacional deixam de ser temas separados e passam a fazer parte da mesma discussão.
Referências bibliográficas
[1] MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA (MME). Estudo liderado pelo MME abre caminho para estratégia nacional que transforme potencial das terras raras em desenvolvimento e reindustrialização. Brasília: MME, 2026.
[2] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Rare Earth Elements. Paris: IEA, 2025/2026. Disponível em: https://www.iea.org/reports/rare-earth-elements. Acesso em: 31 ago. 2026.
[3] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Renewables 2025: Analysis and Forecast to 2030. Paris: IEA, 2025. Disponível em: https://www.iea.org/reports/renewables-2025. Acesso em: 31 ago. 2026.
[4] U.S. GEOLOGICAL SURVEY (USGS). Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths. Reston: USGS, 2026. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/periodicals/mcs2026/mcs2026-rare-earths.pdf. Acesso em: 31 ago. 2026.
[5] AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO (ANM). Sumário Mineral Brasileiro 2025. Brasília: ANM, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/economia-mineral/publicacoes/sumario-mineral. Acesso em: 31 ago. 2026.
[6] SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL (SGB). SGB avança com pesquisas sobre potencial para terras raras na região do Cinturão Ribeira nos estados de São Paulo e Paraná. Brasília: SGB, 2026.
[7] FRANÇA, Silvia Cristina Alves; VERA, Ysrael Marrero. Geopolítica e desenvolvimento tecnológico para a cadeia produtiva de terras raras no Brasil. Rio de Janeiro: Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), 2025.
[8] MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA (MME). Silveira recebe CEO global da Serra Verde e reafirma interesse nacional na atração de investimentos em terras raras. Brasília: MME, 2026.
[9] Journal of Hazardous Materials. Estudo de revisão sobre impactos ambientais e estratégias sustentáveis na produção de elementos de terras raras. 2025.
[10] Resources, Conservation & Recycling. Estudo de revisão sobre ímãs permanentes de terras raras, transição energética e desafios ambientais e geopolíticos. 2024.
[11] Energy Research & Social Science. Revisão sistemática sobre minerais críticos, mineração e dimensões ambientais, sociais e de governança. 2024.
[12] MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA (MME). Mineradora entrega óxidos de terras raras reciclados para projeto pioneiro do SENAI. Brasília: MME, 2025.
[13] Resources. Estudo sobre reciclagem, substituição de materiais e urban mining como estratégias para reduzir riscos associados às terras raras. 2026.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.