BNDES aprova R$ 250 milhões para recuperar 4 mil hectares na Amazônia com produção de cacau

Financiamento do Fundo Clima apoiará sistemas agroflorestais no Pará e em Mato Grosso, com previsão de plantio de 4,7 milhões de mudas e geração de empregos.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 250 milhões em financiamento do Fundo Clima para a recuperação de 4 mil hectares de áreas degradadas na Amazônia. O projeto será executado pela Restaura Amazônia SPE S.A., empresa do Grupo Belterra, e prevê a implantação de sistemas agroflorestais voltados principalmente à produção sustentável de cacau.

Com investimento total de R$ 302 milhões, a iniciativa será desenvolvida principalmente no Pará, com atuação também em Mato Grosso. A previsão é plantar aproximadamente 4,72 milhões de mudas, incluindo espécies florestais nativas, e remover cerca de 337 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) até 2031, segundo as estimativas apresentadas pelo BNDES.

O financiamento integra a modalidade Florestas Nativas e Recursos Hídricos do Fundo Clima, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e operado pelo banco. O prazo total previsto para a operação é de 15 anos, incluindo cinco anos de carência.

Sistemas agroflorestais combinam restauração ambiental e produção de cacau

O projeto utilizará sistemas agroflorestais (SAFs), modelo de produção que combina árvores e espécies agrícolas em uma mesma área. A proposta é recuperar terras anteriormente utilizadas como pastagens degradadas ou lavouras de baixa produtividade, conciliando a restauração da vegetação com a geração de renda.

O cacau será a principal atividade comercial, cultivado em conjunto com espécies como açaí, castanheira, andiroba, ingá, ipê, jatobá e paricá. Também estão previstas culturas de ciclo mais curto, como banana e mandioca.

Ao todo, o planejamento contempla 25 espécies nativas, com diferentes funções ambientais e produtivas. A combinação de árvores e cultivos agrícolas busca melhorar a fertilidade do solo, ampliar a cobertura vegetal, favorecer a biodiversidade e aumentar a capacidade de armazenamento de carbono.

Segundo o BNDES, a expectativa é que a produção de cacau associada ao projeto possa superar 12 mil toneladas por ano. O aumento da oferta poderá contribuir para fortalecer a cadeia produtiva brasileira do chocolate e reduzir a dependência de importações de matéria-prima.

A iniciativa também prevê investimentos em viveiros, sistemas de irrigação, máquinas, equipamentos agrícolas e estruturas para fermentação e secagem do cacau.

Projeto prevê geração de empregos na Amazônia

Além da recuperação ambiental, o financiamento pretende ampliar as oportunidades de trabalho nas regiões atendidas. De acordo com o BNDES, o projeto deverá elevar de 360 para aproximadamente 750 o número de postos de trabalho diretos e de prestadores de serviços vinculados às operações. Após a conclusão do projeto, a expectativa é alcançar cerca de 960 postos.

As atividades envolvidas incluem preparação do solo, produção de mudas, plantio, manejo das áreas, colheita e processamento do cacau.

O modelo de negócios também prevê parcerias com proprietários rurais que possuem áreas degradadas ou de baixa produtividade. A Belterra ficará responsável pelos investimentos iniciais de implantação, incluindo mudas, insumos, assistência técnica e mão de obra, sem exigir aporte financeiro dos agricultores parceiros.

Os contratos poderão ser estabelecidos por meio de arrendamento ou parceria rural. Na modalidade de parceria, os produtores receberão remuneração fixa durante os três primeiros anos, antes do início da produção comercial de cacau. Após o começo das colheitas, passarão a receber uma parcela da produção.

O projeto prevê ainda capacitação em práticas agroflorestais, assistência técnica, apoio à comercialização e iniciativas de regularização documental e certificação dos produtores.

Outro elemento é um contrato comercial de longo prazo firmado pela Belterra com uma empresa global da cadeia produtiva do cacau e chocolate para a compra da produção. O acordo tem prazo inicial de 15 anos e busca oferecer maior previsibilidade à comercialização.

Recuperação de áreas degradadas integra o Arco da Restauração

A iniciativa faz parte do Arco da Restauração da Amazônia, estratégia do governo federal conduzida pelo BNDES em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O programa busca recuperar áreas degradadas, restaurar a vegetação nativa e estimular atividades econômicas sustentáveis em regiões historicamente afetadas pelo desmatamento.

Entre as áreas previstas para receber o projeto da Belterra estão regiões da Transamazônica e de Carajás, no Pará, além de Alta Floresta, no norte de Mato Grosso.

A estratégia do Arco da Restauração estabelece a meta de restaurar 6 milhões de hectares até 2030 e alcançar 24 milhões de hectares até 2050. Segundo o BNDES, já foram mobilizados R$ 3,2 bilhões por meio do banco, do Fundo Amazônia, de empresas e de outros parceiros para projetos de restauração florestal, sistemas agroflorestais e negócios sustentáveis associados à floresta.

O objetivo é transformar áreas degradadas em territórios produtivos e ambientalmente recuperados, contribuindo para conter o avanço do desmatamento, conservar a biodiversidade e gerar emprego e renda para as populações locais.

Projeto poderá gerar créditos de carbono

Além dos resultados relacionados à restauração florestal e à produção agrícola, a Belterra pretende obter certificação para a geração de créditos de carbono associados às áreas recuperadas.

Essa possibilidade poderá representar uma fonte complementar de receita, mas depende da validação dos projetos, da certificação das remoções de carbono e das condições de mercado.

O financiamento aprovado em 2026 é a segunda operação do Fundo Clima com o Grupo Belterra. Em 2025, o BNDES contratou R$ 100 milhões para apoiar a implantação de 2.750 hectares de sistemas agroflorestais em áreas degradadas nos estados do Pará, Bahia, Mato Grosso e Rondônia.

A operação integra a estratégia BNDES Florestas, que reúne instrumentos de financiamento e investimento para apoiar a restauração ecológica, a conservação e o desenvolvimento de atividades produtivas associadas à floresta.

De acordo com o banco, a estratégia já mobilizou R$ 14,6 bilhões no Brasil, sendo R$ 8,7 bilhões em financiamentos e R$ 5,9 bilhões em participações e investimentos.

O projeto da Belterra reforça a aposta em modelos que associam recuperação ambiental e produção agrícola como alternativa para áreas degradadas da Amazônia, com foco na cadeia do cacau, na geração de renda rural e na restauração florestal.

Fonte: Agência BNDES de Notícias, publicada em 19 de outubro de 2026.

Foto: Tomaz Silva