O Eco Invest Brasil recebeu uma demanda de R$ 181,3 bilhões no 5º leilão do programa, realizado pelo governo federal para ampliar a participação de capital privado em projetos relacionados à inovação e à transformação ecológica. Do total apresentado pelas instituições financeiras, R$ 49,95 bilhões em potencial de investimentos foram homologados para seis cadeias produtivas consideradas estratégicas para a economia brasileira.
O resultado foi homologado nesta quarta-feira, 7 de outubro, pelo Comitê Executivo do Eco Invest Brasil, formado por representantes dos ministérios da Fazenda e do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Ao todo, foram apresentadas 23 propostas por seis instituições financeiras.
A rodada prevê a utilização de diferentes instrumentos financeiros, incluindo fundos de inovação, crédito corporativo e recursos não reembolsáveis para pesquisa aplicada e empreendedorismo de base tecnológica.
Quais setores receberão os investimentos?
Os recursos foram direcionados para seis cadeias produtivas relacionadas à transformação ecológica, inovação tecnológica e transição para uma economia de baixo carbono. A maior parcela, de R$ 11 bilhões em potencial de investimento, foi destinada à circularidade de resíduos minerais e industriais para produção de novos insumos.
O Bradesco foi selecionado para estruturar o fundo dessa cadeia e também venceu a disputa nas áreas de fertilizantes verdes, bioinsumos e proteínas alternativas, com potencial de R$ 9 bilhões, e de biomateriais e química verde, com R$ 8,5 bilhões.
O Itaú ficou responsável pela cadeia de automação e inteligência artificial aplicadas a processos produtivos e tecnológicos, com potencial de R$ 9,75 bilhões.
Já o Santander foi selecionado para a cadeia de beneficiamento de minerais críticos, baterias e mobilidade elétrica, com R$ 6,5 bilhões em potencial de investimentos.
O HSBC venceu na área de combustíveis verdes avançados, biogás e biometano, com potencial de R$ 5,2 bilhões.
Distribuição do potencial de investimentos
| Cadeia produtiva | Potencial de investimento |
|---|---|
| Circularidade de resíduos minerais e industriais | R$ 11 bilhões |
| Automação e inteligência artificial | R$ 9,75 bilhões |
| Fertilizantes verdes, bioinsumos e proteínas alternativas | R$ 9 bilhões |
| Biomateriais e química verde | R$ 8,5 bilhões |
| Minerais críticos, baterias e mobilidade elétrica | R$ 6,5 bilhões |
| Combustíveis verdes, biogás e biometano | R$ 5,2 bilhões |
Os valores correspondem ao potencial de investimento associado às propostas homologadas e não significam que todo esse montante já tenha sido desembolsado. A lógica do programa é utilizar recursos públicos como capital catalítico para estimular a entrada de recursos privados.
Eco Invest busca multiplicar recursos privados
Um dos principais aspectos do 5º leilão é justamente o efeito de alavancagem pretendido pelo programa.
Segundo o Ministério da Fazenda, a alavancagem global da rodada ficou em aproximadamente 3,8 vezes, considerando os recursos públicos e privados em relação ao capital catalítico utilizado.
Na prática, a estratégia busca fazer com que os recursos públicos funcionem como instrumento para atrair um volume maior de capital privado para projetos considerados estratégicos para a transformação ecológica.
Do capital público catalítico destinado à rodada, R$ 9 bilhões serão direcionados aos fundos de inovação e R$ 4,2 bilhões ao crédito corporativo.
Além disso, os bancos selecionados deverão destinar recursos não reembolsáveis para pesquisa aplicada e empreendedorismo de base tecnológica. A previsão é de pelo menos R$ 250 milhões em doações, no primeiro ano, para universidades e instituições de ciência e tecnologia que desenvolvam pesquisas relacionadas às cadeias contempladas.
Reciclagem, bioinsumos e baterias entre os setores em destaque
Além da divisão por cadeias produtivas, o resultado do leilão mostra quais atividades podem concentrar parte importante dos recursos. Segundo o governo federal, reciclagem e valorização de resíduos concentram R$ 8,8 bilhões em potencial de investimentos.
Automação, robótica e manufatura inteligente reúnem aproximadamente R$ 8,11 bilhões, enquanto biofertilizantes, bioinsumos e biodefensivos representam R$ 7,2 bilhões.
Outro segmento de destaque é o de baterias e sistemas de armazenamento de energia, com R$ 4,55 bilhões em potencial de investimentos.
A distribuição mostra que a chamada transformação ecológica não está restrita a projetos tradicionalmente classificados como ambientais. A estratégia envolve também indústria, tecnologia, inteligência artificial, mineração, mobilidade, energia, agricultura e novos materiais.
Mercado financeiro demonstra interesse na economia verde
A diferença entre a demanda apresentada no leilão e o volume efetivamente homologado também chama atenção. As seis instituições financeiras participantes apresentaram propostas que somaram R$ 181,3 bilhões em demanda, enquanto o resultado homologado chegou a R$ 49,95 bilhões em potencial de investimentos.
Participaram do processo Banco do Brasil, Bradesco, Citibank, HSBC, Itaú e Santander. Ao final, Bradesco, HSBC, Itaú e Santander foram selecionados para estruturar os fundos e operações relacionados às seis cadeias produtivas.
O resultado coloca uma questão importante para a economia brasileira: quanto capital privado pode ser efetivamente direcionado para setores associados à transição para uma economia de baixo carbono quando existem mecanismos públicos capazes de reduzir riscos e estimular novos negócios?
Para onde vai o dinheiro da transformação ecológica?
O resultado do 5º Leilão do Eco Invest Brasil mostra que a chamada economia verde está sendo tratada pelo governo não apenas como uma agenda ambiental, mas também como uma estratégia de política industrial, inovação e financiamento.
Resíduos, bioinsumos, combustíveis verdes, minerais críticos, baterias, mobilidade elétrica, inteligência artificial e novos materiais aparecem entre os setores considerados estratégicos.
O desafio agora passa a ser acompanhar a transformação do potencial de R$ 49,95 bilhões em investimentos efetivamente realizados, quais empresas terão acesso ao crédito, quais projetos serão financiados e quais resultados econômicos, ambientais e tecnológicos serão alcançados.
Mais do que o tamanho do anúncio, esse acompanhamento será importante para medir se os mecanismos de financiamento da transformação ecológica conseguem levar recursos para projetos capazes de gerar inovação, competitividade e redução de impactos ambientais em escala.
O que é o Eco Invest Brasil?
O Eco Invest Brasil é um programa federal criado para ampliar e diversificar as fontes de financiamento de projetos relacionados à transformação ecológica, utilizando instrumentos capazes de estimular a participação do capital privado.
No 5º leilão, a estratégia foi direcionada a cadeias produtivas consideradas prioritárias para inovação e transformação ecológica, combinando fundos de inovação, crédito corporativo e recursos destinados à pesquisa e ao empreendedorismo tecnológico.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.